
O curador da exposição disse várias vezes e por diferentes palavras aquilo que o público pode ver a partir desta sexta-feira: dois lados, dois caminhos, dois processos. Um vai às raízes culturais chinesas, aos mitos e aos símbolos, representa sonho e fantasia. O outro lado é engajado, fala do artista-ativista, tem carga autobiográfica, reflete temas da atualidade. Marcello Dantas, o curador: “A exposição faz duas coisas. Revela-nos uma condição humana desligada do plano superior e do plano terreno e procura abrir portas para essa reconexão.” Diz mais, referindo-se às muitas peças em que ao artista se autorretrata: “Ele é um jogador, joga com a própria vida. Não é um observador da vida, é uma peça do tabuleiro. Não está do lado de fora, está dentro de campo, o que faz toda a diferença.”
O artista de que se fala é Ai Weiwei, nascido em Pequim há 63 anos. Uma celebridade das artes visuais contemporâneas, criador dissidente que trabalha em torno dos traumas chineses e afronta o regime do Partido Comunista com obras e declarações sobre censura, vigilância e violações dos direitos humanos. Por sucessivos agravos esteve preso há dez anos em Pequim, sem acusação, até que foi obrigado a exilar-se na Europa, deixando para trás a mãe, de 88 anos, que alegadamente recebe ameaças da polícia secreta chinesa por causa das atividades do filho no estrangeiro.
Berlim, Cambridge, agora Portugal. Ai Weiwei chegou em fins de 2019, instalou-se numa quinta em Montemor-o-Novo, no Alto Alentejo, e aí vive com o filho de 11 anos, mais uma ninhada de gatos, uma criação de galinhas e muitas árvores. Mais recentemente, comprou casa em Lisboa, na zona da Penha de França. Já diz que Portugal é a sua terra, que só pode confiar num país em que o sol brilha quase sempre.
E no entanto a ideia da exposição — ideia do curador, que já apresentou Ai Weiwei no Chile, na Argentina e no Brasil (grande exposição em 2018 no pavilhão Oca, de São Paulo) — é anterior à vinda do artista. “Chega a Portugal em novembro, às oito da manhã, e marca almoço comigo à uma da tarde. Entre uma coisa e outra, comprou uma propriedade no Alentejo e criou um vínculo quase espontâneo”, resume Marcello Dantas, de 54 anos, 30 dos quais com ligação a museus e instituições culturais de todo o mundo.
Ai Weiwei revelou a sua exposição em Lisboa: "Aqui procurei e encontrei conforto" - Observador
Read More
No comments:
Post a Comment